Nicomedes Nunes de Souza
Pastor Batista
Psicólogo clínico
CRP-20/07314
Pós-graduando em Neuropsicologia

Como psicólogo tenho visto muitos casos de ideação suicida no meio de jovens e adolescentes. Uns chegam a cometer o ato, outros, quando buscam tratamento superam o transtorno e voltam a ter uma vida normal e com sentido. A pergunta que todos fazem: “onde estão as explicações para episódios tão sombrios”? O fato é que o suicida nunca quer matar a si próprio, mas a dor que tomou conta de todo seu ser! E quais fatores contribuem para a ação do suicídio e quais fatores contribuem também para superar esse momento sombrio? Porque esta geração está sendo tão afetada pelo mal do século, chamado “depressão”? Antes de querermos uma resposta pra tudo, é necessário fazer uma analise das mudanças pelo qual a sociedade tem passado. Muitos não se dão conta dessas mudanças e por isso estão à deriva, em um labirinto sem saída.

Estudiosos (Psicólogos, Teólogos, Filósofos, Psiquiatras, Antropólogos) defendem que estamos de certa forma, presenciando o assassinato da infância de nossas crianças e dos adolescentes. Diz Augusto Cury: “Pais estão alterando o ritmo da construção dos pensamentos através de um excesso de estímulos, seja por meio de presentes a todo o momento ou através do acesso ilimitado aos aparelhos eletrônicos, redes sociais, com isso os mesmos estão perdendo as habilidades socioemocionais fundamentais para uma saúde mental equilibrada como: exercer a empatia, pensar antes de agir, ter habilidade para expor e não impor suas idéias, aprendendo e praticando a arte da gratidão”. Crianças, por exemplo, que aos três anos de idade já possuem um Tablet ou Smartfhone, pois os pais não querem ser perturbados. Talvez seja este o motivo de um numero tão alto de crianças e adolescentes egoístas, vivendo em um mundo privado e sombrio, onde as redes sociais são seus eternos e únicos companheiros confidentes.

É certo, em uma época de tanto avanço tecnológico, nunca tivemos uma geração tão triste e depressiva como esta. Tudo indica que a resposta que muitos estão em busca para a ação do suicídio, esteja no fato de crescerem nesse mundo “privado e sombrio” onde não há uma intervenção da liberdade sem limites. Crescem sem se dar conta de que a vida também é construída de NÃOs e não só de SIMs. Pais que tomaram uma decisão: o meu filho (a) não vai passar o que eu passei. Em outras palavras, vou trabalhar com o fim de dar tudo o que eu não tive e com isso exclui-se a visão de que na construção da vida existe a “dor”! Esse ser, então, é lançado no mundo e ao deparar-se com o primeiro Não, adoece – não sabe enfrentar a situação, vem o desespero e a decepção da perda, e a única saída encontrada para eliminar o sofrimento é o suicídio.

Há uma grande demanda de jovens e adolescentes com ideação suicida por motivo do termino do namoro, ou seja, a frustração por ter recebido um Não! Reproduzo aqui a letra de uma musica da década de 70/80, onde se percebe nitidamente o diferencial no enfrentamento ao NÃO, em questões emocionais. A música chama-se “Hey girl” (Ei garota) – “Hey girl Que vou fazer? Não sei viver longe de você – Sem seu amor eu não sou ninguém! Você se foi – nem disse adeus – Eu já nem sei onde procurar – Hey girl – preste atenção – porque senão vai se arrepender – um outro amor eu vou encontrar- Para esquecer que um dia eu te amei – E por amar quanto eu chorei – Não leve a mal – Se falo assim – É que não sou quem você pensou – Mas se você voltar pra mim – Eu te prometo amor – Tudo esquecer”.

A letra desta musica que tanto sucesso fez na sua época, retrata bem a forma que aquela geração enfrentava os NÃOS. Havia o sofrimento da perda, sim, com certeza. Havia inclusive o choro, porém, o desespero estava excluído, assim como o medo de enfrentar a situação, a vida tinha sentido e por isso o suicídio era descartado, sabia-se receber e enfrentar um NÃO. Namoros começavam e chegava ao fim, algo natural, tinha-se a noção de que a vida também era construída dos Nãos e ainda assim eram felizes.

A capacidade de suportar o próprio sofrimento, segundo Viktor Frankl, está diretamente relacionada com a dificuldade em realizar o que ele chama de “valores de atitude” – o individuo precisa de atitude no enfrentamento da doença.

Portanto, concluo com as palavras de Viktor Frankl, no livro “O sofrimento de uma vida sem sentido” pg 9, no qual afirma que “cada época tem suas neuroses e cada tempo precisa de sua psicoterapia. Segundo ele, hoje não nos defrontamos mais, como nos tempos de Freud, com uma frustração sexual, mas sim, com uma frustração existencial”. O sofrimento das pessoas do nosso tempo está relacionado a falta de sentido na vida, estando associado a um sentimento de vazio interior, o que ele denomina de vazio existencial. Logo, o alto índice de suicídio provém de uma vida sem sentido, isto é, a não razão da sua existência.